O Chamado das Sombras | Introdução à Literatura Gótica

 

"O Castelo de Otranto está assombrado! Um elmo gigantesco caiu do céu e esmagou meu filho, o príncipe herdeiro. Mas isso não é tudo. O retrato do velho barão, Ricardo, saiu de sua moldura e agora vaga pelos corredores. E o pior de tudo, ouço gemidos e sussurros vindos das paredes. O castelo está amaldiçoado, eu sei que está!"

— Horace Walpole – O Castelo de Otranto (1764) 


A Literatura Gótica ergue-se como um castelo em ruínas, envolto em brumas e segredos ancestrais. Nascido entre os sussurros da noite e os ecos dos corredores escuros, este gênero se impõe como um dos mais enigmáticos e fascinantes da literatura mundial. Sua essência está no entrelaçamento do sublime e do macabro, do racional e do sobrenatural, do desejo e do terror.

Mas, afinal, como surgiu a literatura gótica, altamente sedutora, altamente periculosa, que nos envolve com sua atmosfera sombria?

As Raízes do Gênero Gótico

A literatura gótica nasceu no final do século XVIII, impulsionada pelo Romantismo e pelo crescente interesse pelo mistério, pelo irracional e pelo terror psicológico. Seu nome deriva da arquitetura gótica medieval, marcada por catedrais imponentes, castelos em decadência e paisagens desoladas, elementos que se tornaram cenários recorrentes nas narrativas do gênero.

Como os Godos viraram Góticos?

A palavra "gótico" tem origem no termo Gutan, referente aos godos, um povo germânico que desempenhou um papel crucial na queda do Império Romano. Durante o Renascimento, o termo passou a ser usado de forma pejorativa para descrever a arte e a arquitetura medieval, consideradas bárbaras pelos críticos da época, em comparação com os modelos da antiguidade greco-romana.

• Gutan
= Gothi em latim = Gothic termo pejorativo

Se fosse para adaptar a palavra original ao português, teríamos um "gôdico" #brincadeirinha rs.

No entanto, com o tempo, a palavra foi ressignificada e incorporada ao imaginário literário, carregando consigo a ideia de mistério, decadência e grandiosidade sombria. Imagina só, esse estilo arquitetônico "ralé" ficou tão incrível que, o termo pejorativo inicialmente passou a ser um adjetivo: Gótico 💜

Essa mudança de percepção não se limitou à arquitetura. O termo "gótico" começou a ser aplicado a outras formas de expressão artística, como a literatura, que explorava temas como o terror, o sobrenatural e o mistério, criando atmosferas sombrias e envolventes.

Assim, o que era inicialmente um termo pejorativo se transformou em um adjetivo que descreve um estilo artístico e cultural rico e diversificado. A arquitetura gótica, com suas catedrais majestosas e vitrais coloridos, tornou-se um símbolo de beleza e engenhosidade. A literatura gótica, com seus romances cheios de suspense e personagens complexos, conquistou leitores de todas as épocas.

A primeira obra considerada oficialmente gótica é O Castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole. Combinando o sobrenatural com o drama familiar e o horror, Walpole inaugurou uma nova forma de contar histórias, misturando paixão, tragédia e terrores ocultos. O Castelo d Otranto foi escrito num período de transição na literatura inglesa. O Iluminismo, que defendia a razão como a principal fonte de autoridade e legitimidade, e defendia ideais como liberdade, progresso, tolerância e separação entre Igreja e Estado, estava em declínio, e havia um crescente interesse pelo sobrenatural e pelo misterioso. O romance de Walpole ajudou a pavimentar o caminho para o desenvolvimento do gênero gótico, que se tornaria muito popular nas décadas seguintes.

Assim, o gênero gótico foi crescendo e se expandindo através da literatura do século XIX, com influências da filosofia, da psicologia e do avanço da ciência, levando a um aprofundamento na complexidade das narrativas. A Literatura Gótica dividiu-se em subgêneros e influenciou outras formas de expressão artística, do cinema à música.

Principais Autores e Obras do Universo Gótico

💜 Horace Walpole – O Castelo de Otranto (1764)

O marco inicial da literatura gótica, O Castelo de Otranto trouxe uma combinação inédita de elementos sobrenaturais, ambientação sombria e intrigas familiares. Esta obra não apenas definiu o gênero, mas também inspirou inúmeras histórias posteriores.

💜 Mary Shelley – Frankenstein (1818)

Uma das obras mais emblemáticas do gênero, Frankenstein transcende o horror convencional ao abordar temas como a ética científica, o isolamento e a natureza do ser humano. Shelley criou um monstro que se tornou um ícone cultural, personificando o medo do desconhecido e a tragédia da rejeição.

💜 Edgar Allan Poe – O Corvo (1845) e O Coração Delator (1843)

 O mestre do horror psicológico e da angústia existencial, Poe explorou os abismos da mente humana, criando contos e poemas marcados por uma atmosfera sombria, personagens atormentados e a inevitabilidade da morte. Sua escrita intensa e perturbadora imortalizou-se na cultura gótica.

💜 Bram Stoker – Drácula (1897)

Nenhuma lista sobre literatura gótica estaria completa sem Drácula. Inspirado em lendas sobre vampiros e na figura histórica de Vlad, o Empalador, Stoker consolidou o arquétipo do vampiro moderno, envolvendo o leitor em uma narrativa epistolar repleta de erotismo, horror e decadência.

💜 Oscar Wilde – O Retrato de Dorian Gray (1890)

Com uma prosa afiada e uma crítica à sociedade vitoriana, Wilde nos presenteia com a história de Dorian Gray, um jovem belo e hedonista cujo retrato envelhece em seu lugar, refletindo sua corrupção moral. A obra é um dos grandes exemplos da fusão entre literatura gótica e filosofia estética.

💜 Sheridan Le Fanu – Carmilla (1872)

Antes mesmo de Drácula, Le Fanu trouxe ao mundo Carmilla, uma novela sobre uma vampira feminina que desafia as convenções da época e traz um forte subtexto homoerótico. A obra influenciou incontáveis histórias sobre vampiros, como o próprio Bram Stoker e permanece um clássico do gênero.


O Legado da Literatura Gótica

A literatura gótica nunca desapareceu. No Brasil, foi 'cancelada', colocada à sombra pelos modernistas da década de 1920, cujo desejo era romper com influências europeias, buscando apagar sua presença da cena gótica literária nacional. Contudo, o gótico resistiu, como um espectro que se recusava ser esquecido. Hoje, a literatura gótica nacional vive um renascimento vigoroso, explorando narrativas sombrias e profundas que dialogam com a identidade brasileira. Mais do que nunca, autores e leitores encontram na escuridão um refúgio criativo, provando que o terror e o mistério sempre tiveram um lugar cativo em nossa cultura. Suas sombras continuam a se espalhar pelas páginas de livros e telas de cinema, seduzindo aqueles que se atrevem a caminhar pelos corredores escuros do desconhecido.

E você, caro leitor, está pronto para adentrar as entranhas desse belo universo misterioso e macabro?



Até o próximo sussurro.

Maira V. Macri.

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